domingo, 28 de outubro de 2007

Terra Adormecida (Versão completa) - 19/01/08

Muitos homens já almejaram o que hoje, neste exato instante, vislumbro sem ter desejado. Muitos “dariam a vida” por este momento, mas sem vida não teriam como apreciar o algo pelo qual tanto lutaram, por isso nunca entendi direito esta frase, mas agora já é tarde mesmo, acho que ninguém mais poderá me dar uma resposta interessante.

Tão alto aqui! Sempre tive medo de altura, mas nesses dias parece que meus medos se despedaçaram... aliás, parece que muito mais do que meus medos foram despedaçados... aqui é tão alto, posso ver tudo, e parece um grande e lindo quadro, talvez um pouco descolorido, uma paisagem gélida, fria, sem vida, intocável, tão mórbida que parece um pesadelo aos moldes antigos, em preto e branco e sem som – talvez seja para não ouvirem os meus berros angustiantes.

La estava eu, sentado com os pés ao ar, no ponto mais alto que pude encontrar – talvez se eu pulasse, poderia alcançar as nuvens – e sentado ali, sentindo o sopro gelado de deus, eu só conseguia olhar para a vasta imensidão e pensar, pensar e pensar, mas minha mente estava em estado de choque, vazia, e todos os pensamentos que ali chegavam se tornavam parte do vácuo que tomava conta da minha mente, e aos poucos dominava meu corpo fazendo com que eu sentisse como se estivesse sendo desintegrado, me transformando em nada, uma criatura sem pensamentos, sem instintos, sem vontades, sem tato, sem rumo, apenas um corpo vazio, sozinho no mundo - e eu realmente só conseguia pensar se estava sozinho no mundo.

De fato, tudo começou de forma estranha, fora do habitual. Uma pessoa que esta acostumada a ser acordada todos os dias no café com leite do amanhecer, ao som berrante da modernidade – e quando se mora numa das avenidas mais movimentadas da cidade, pode-se realmente dizer “berrante” – e na melhor das hipóteses, ser acordado dez minutos mais tarde por uma multidão de pivetes selvagens cheios de energia; acabar acordando a plenas duas horas da tarde, com um silêncio tão assustador que eu conseguia pela primeira vez em meus 20 anos ouvir minha própria respiração – ah! Eis a prova que eu precisava para saber se realmente estava vivo a tanto tempo - e isso me levava a crer que realmente tinha acontecido algo naquele dia.

Após seguir o ritual diário, andei por toda a casa procurando evidencias de um possível seqüestro ou quem sabe atentado terrorista – mas pensando bem, atentado terrorista é coisa de país desenvolvido – pois tanto silêncio assim já estava me deixando paranóico, eu não estava acostumado a viver num mundo civilizado e puro, então subi e abri a janela da sacada do quarto do meu tio pra olhar se tinha acontecido algo na vizinhança, mas mesmo com uma visão bem panorâmica tudo o que eu consegui ver foi uma quietude digna de filmes de Hollywood, quando mostram aquelas avenidas tão movimentadas, consagradas pelo mundo contemporâneo, sem absolutamente nenhum carro, nenhuma pessoa, nenhum único som, nem mesmo o zumbido de um mosquito – mas aquilo ali não era Hollywood, tinha carros, alguns insetos e cães, mas não havia nenhuma pessoa, nenhum ruído, era muito realista para ser um filme.

Imediatamente liguei a TV para ter alguma noticia do que poderia estar acontecendo, mas todos os canais da TV aberta estavam sem sinal, e os demais canais da TV por satélite também, aquele chuviscado oras intercalando para as faixas coloridas eram amedrontadoras, é como se toda a humanidade tivesse sido dizimada! E este pensamento estava se fixando cada vez mais, pois nem se quer o rádio estava funcionando, todas as estações estavam fora do ar, nenhuma gravação de emergência sobre campos de refugiados – e pelas experiências hollywoodianas eu já pude concluir que não era nenhuma pandemia de zumbis e afins – e numa tentativa mais desesperada de encontrar algum sinal de vida, fui ao telefone, ao menos ainda havia energia elétrica e sinal telefônico, então disquei para todos que conhecia, disquei para toda a lista de telefones dos meus tios, e num ato de desespero tentei o maior numero possível de telefones da enorme lista telefônica... ecoando cada “tuuuu... tuuu...” nas grandes paredes de desespero que se instalavam nas minhas cada vez menores esperanças, sentia todo e qualquer resquício de esperança se desfragmentando dentro de mim.

A carne estava trêmula e pálida, meu corpo naquele dia era referência de horário solar, depois de passar um dia inteiro no telhado buscando no raso e nas alturas, com o ouvido colado no rádio e discando o dia todo para números aleatórios, eu já não conseguia mais sentir nada, não conseguia sequer pensar, tudo o que eu conseguia fazer era chorar de agonia e gargalhar por insanidade! Meu corpo já estava desidratado e eu estava faminto, ao menos, ainda poderia me alimentar decentemente, mas até então não saberia dizer por quanto tempo eu me alimentaria, pois ter um mundo inteiro só pra mim era muita responsabilidade, e exigia mais de mim do que meu corpo e minha mente poderiam conseguir.

Me aquietei quando Ártemis caiu sobre Amon-Rá, trazendo toda sua sombria poesia sobre a pele do silencioso planeta o qual eu poderia chamar de minha casa, e eu já estava pensando em dar um nome mais agradável, pois Terra foi muita falta de originalidade, e tão pouco conhecimento, pois terra é o que menos temos na minha casa. Mas antes de colocar a minha mente para funcionar de novo, eu precisava esquentar o corpo, colocar a cabeça em estado de resfriamento antes que tudo entrasse em colapso, então tirei a roupa, liguei o chuveiro quente sem me importar com a conta da água e da eletricidade – sem lobos, não há contas para pagar – e ali fiquei horas, talvez toda a noite, apenas deixando meu corpo apreciar cada gota, cada respingo daquela água que aquecia muito mais do que somente meu corpo e amordaçava minha tristeza.

Agora aqui estou, próximo ao céu após caminhar incessantemente pela cidade durante os últimos suspiros de Ártemis, e talvez eu fique sentado aqui conversando com os deuses, talvez eu até convença Rá ou Apollo – que seja, tantos nomes para a mesma coisa – a deixar Ártemis descer em meu reino, e cá ficar enquanto meu corpo não adormecer no colo da mãe Gaia e do pai Universo. É, realmente estou a deriva da insanidade, hahahaha... o que estou pensando? É muita tolice achar mesmo que a noite seria eterna por um simples desejo meu, mas já fico confuso ao questionar as possibilidades, afinal, qual seria a probabilidade de eu ser o único ser humano a habitar o planeta? Mas bem, eu não tenho realmente certeza de que sou o único nesse planeta tão vasto, mas com apenas vinte anos de idade, talvez nos próximos anos eu possa realmente ser o único, talvez por eu ainda estar numa idade intermediaria, acho que os mais novos não estariam aptos a tanta pressão numa situação dessas, e os velhos não teriam tanto interesse em se manter vivos, e nem muito mais tempo para viver... mas até onde o meu psicológico suportaria?

Três dias, parece que envelheci 30 anos... acho que vou dar uma volta pela cidade, assim tão vazia, e eu assim tão sem rumo, nessas condições a cidade parece ser um lugar bem atraente. Eu poderia andar pela cidade toda sem me preocupar com o horário, sem me preocupar com segurança, eu poderia entrar nas lojas e pegar o que eu quisesse, poderia experimentar novas sensações, ter tudo o que sempre quis, poderia entrar em todas as casas e ver o que cada um deles tanto guardava em suas muralhas, poderia conhecer mais sobre cada pessoa agora do que enquanto poderia estar falando com elas, pois seus pertences, suas compras, suas casas, suas organizações, tudo isso fala com mais sinceridade do que a paranóica mente humana passa aos desconfiados lábios de seu proliferador. Ah, claro, eu poderia dirigir todos os carros, desde o fusquinha cor de rosa até aquele maravilhoso carro que se transforma em robôs, ou aquele outro que anda pelas paredes dos prédios, ou até mesmo aquele outro que faz desenhos ganharem vidas e chãos se abrirem perante suas prepotências, e tudo isso, sem me preocupar em bater em alguém, e se bater também, quem é que ira cobrar pelos danos? Foi o que eu pensei...

Mas sabe, também fico pensando, nunca mais ouvirei uma musica nova das bandas que tantas vezes fizeram meus momentos de alegria, tristeza, euforia e quietude, nunca mais verei algo inovador e revolucionário surgir, nunca mais experimentarei refeições e guloseimas que não sejam as que meu limitado cérebro sabe reproduzir ou que estejam a disposição nos mercadinhos por ai, jamais viajarei de avião ou de navio para outro lugar do mundo, jamais lerei obras novas e ouvirei falar de novos gênios da humanidade, a não ser que eu reinvente o mundo, que de alguma forma eu seja capaz de aprender a fazer tudo sozinho, crie novas musicas, crie novas invenções, aprenda a pilotar um avião ou um navio e me torne um grande mestre cuca e um gênio inigualável!

“hahahaha”... “hahahahiiii”... “hehehehe” “haaaaaahaha haaaahahahaha”.. talvez eu esteja mesmo ficando louco! É gostoso descobrir os tipos de risadas que se pode dar quando se pensa algo tão fugaz a própria realidade de cada um. Eu nunca consegui se quer aprender matemática sozinho quando precisava estudar para as provas de recuperação, quem dirá me transformar no maior gênio que já pisou nesse planeta! Mas agora eu tenho algo que muitos jamais tiveram, eu tenho tempo, tempo pra ler tudo o que já foi escrito, tempo pra errar e aprender, pra transformar conhecimento em algo mais concreto, pra transformar insanidade em genialidade, e se eu falhar, tentarei de novo, oras, se eu falhar ninguém saberá, e aqui ninguém vai me despedir da função de gênio porque sou humano e por vezes posso errar, e se meus erros me custarem a vida, ao menos não magoarei ninguém e nem serei motivos de chacota.

Conforme os dias passam, meus anjos e demônios arranjam novos lugares para se esconder, e cá fico eu sem saber pra onde ir. Não se foram nem mesmo 7 horas de uma ressurreição mal dormida e já estou farto da idéia de ser o maior gênio da humanidade. Mas pensando melhor, não preciso nem me esforçar para tal, estou sozinho, então sou o maior gênio da humanidade – de um homem só – tanto em altura, quanto em conhecimento.

Meus fantasmas, doces fantasmas, não é porque estou aqui enfastiado de solidão que deixo a vocês um prato vazio, sem a dita amarga crítica, que de tão amarga torna-se saborosa, e de tão saborosa torna-se enjoativa. Estando tão sozinho percebo como o mundo sempre foi vazio, cheio de recipientes de barro recheados de vácuo – e ao barro todos voltaram – vasilhames que despejam sobre outros vasilhames seus egos tão justos que não poderiam nem se tornar calça da moda numa sociedade anoréxica, palavras tão dispersas que soam como uma borbulhante sopa de letrinhas, que eventualmente amontoam-se criando palavras estranhas como “amizade”, “amor”, “justiça”, “prazer” e coisas afins. Poucas são as pessoas que podem dizer que em vida puderam apreciar uma boa amizade, um amor verdadeiro, uma vida plena e feliz, mas muitos são aqueles que dizem as ter vivido, talvez para poderem dizer a si próprio que são deuses, e apesar de não levarem gatos e nem jóias preciosas a seus sepulcros, ao menos levaram algo de mais valor – pff, talvez não tenham lido no dicionário o significado de “valor”.

Assim passam-se todos os meus dias, falando sozinho, como se minha mente fosse um livro, e os mortos que um dia aqui viveram comigo neste mundo, fossem os leitores. Críticas, teorias, conspirações, análises, pensamentos, todas as artimanhas que nossa mente pode criar, lindas e corrosivas, o que eventualmente me faz pensar qual a origem disso tudo. Afinal, de onde vieram os pensamentos antes de se tornarem pensamentos? Em uma fração de segundos nossa mente está vazia, na outra fração de segundos temos em mente a fórmula perfeita para nos matarmos, individualmente e coletivamente, e num piscar de olhos, temos este pensamento se proliferando pela feroz língua humana, tomando assim outras mentes, e como numa reação em cadeia, o que antes nem pensamentos eram, tornam-se hospedeiros das frágeis carcaças humanóides – então todos podemos alegar diante de um tribunal que somos inocentes, afinal, a culpa é do desconhecido hospedeiro.

Ahhhhhhhhhhhh! Como minha mente é confusa! Parece um festival de música progressiva, onde cada pensamento quer se mostrar mais complexo e sagaz que o outro, enquanto na verdade, são obras criadas para saciar a si próprios.

Tic tac, tiq tac, tic tac, bééééééé, tic tac, tic tac, tic tac, béééé…

Eu poderia ficar nesse mundo até todos os relógios tocarem todos os horários que eu pudesse combinar para despertar, ou poderia experimentar todas as barras de chocolate e todas as outras porcarias industrializadas que me deixam feliz até engordar cem quilos. Eu poderia ouvir todos os CDs, vinis e fitas, até enjoar de cada nota de suas músicas, ou poderia assistir todos os filmes de todas as locadoras até decorar todas as falas. Poderia conhecer todas as casas, poderia dirigir todos os carros e motos, poderia trabalhar em todas as empresas, ocupar todas as funções, pegar todo o dinheiro e queimá-lo em homenagem a todos os que dedicaram suas vidas imaginando um sistema utópico de governo.

Eu poderia viver muitos anos, passar por bons e maus momentos, sentir muito prazer e muita dor, poderia poder tudo e mais um pouco, mas descobri que tudo, ou melhor, nada me satisfaz, e a única coisa que desejo é descobrir como é o outro lado da vida, afinal esse lado é muito solitário e vazio. Mas não vou embora de mãos vazias, pois muito aprendi, como por exemplo, que tudo que existe nesse mundo só tem valor quando podemos dizer que nós temos e outra pessoa não. Tantos valores sem valor, tanta coisa que não vale nada e só agora eu pude entender isso, e talvez todas as pessoas pudessem entender – e quem sabe assim, um mundo tão cheio deixaria de ser tão vazio.

Só gostaria de deixar registrado em minha mente, uma despedida, afinal a minha mente foi a minha melhor amiga, alguém a quem eu pude confessar todas as minhas palavras, alguém que me acompanhou em momentos que nem eu mesmo fui capaz de acompanhar. Adeus a todas as minhas frases e a todas as minhas sinapses, agora quero dividir com você – ou comigo mesmo – a visão que uma gota de chuva tem antes de virar uma poça de água.

...

!!!!!!!!

?

...muitos homens já almejaram o que hoje, neste exato instante, vislumbro sem ter desejado...

3 comentários:

Unknown disse...

Caro escritor:

Sua história é simplesmente incrível! Você tem uma mente fascinante e doente! (sorria) e isso é ótimo! Algumas partes, são como se eu tivesse narrando a história, como se eu fizesse parte dela! Com uma narração e imagens, seria ainda mais maravilhoso! Porém (olha o chato,inútil e pseudo crítico criticando!) Há partes que faltam algo, algum tipo de sentimento e outras simplesmente jorram isso. Também senti que falta um pouquinho de algo que domine a mente das pessoas e prenda ainda mais a atenção delas. Algo, que as sequestre e jogue-as em meio as letras desse texto, não que o seu não tenha isso (até mesmo porque, há partes maravilhosas nele), mas percebi que as vezes, me desconecto do texto e logo em seguida volto a estar dentro dele, então, precisa de mais, mais, mais e mais (uhauhusasasaHU!) desse algo (é, eu quero sempre mais) Mas também, eu tenho que admitir, que como é a primeira parte (e isso é muito comum nos livros, histórias, contos, sorrimentos e afins) faltar um pouco disso, mas enfim, esqueça meus conselhos/pseudo-críticas e continue escrevendo, eu ainda quero ler o que vai acontecer no decorrer dessa história.

Boa sorte nessa sua nova "empreitada"!

[]'s
Ass: Um leitor excêntrico e sorridente!

Jackie ♥ Felipe disse...

Concordo com o Sr. Chato aqui!
Vc tem uma mente fascinante (mas não é doente...skaopskpoa)
Eu tbm começei a ler e não consegui parar...a cada palavra que eu lia, despertava a minha curiosidade e fazia com que euu pedisse mais e maais!

Adoreii meuu amoor e continue escrevendo!

Eu te amoo meu amooor!
to orgulhosaaa do meu lindiinho!
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Jackie ♥ Felipe disse...

Posso falar de novo?
Que orguuulho do meu fe! *-*
kspaokspoaksoakspoas

Tem uma mente tãão complexa e inteligeeente! skpaokspoaks
É mow, estava passando aqui toda a semana pra ver se vc postava e nada! e hj o fe postou! kspoakosaksa
e olha moow, ficou muuuito bom! eu queriia saber como vc tira essas coisas da sua cabeça! me ensinaa viu!
ksaposkpoakspoakspoa

eu te amoo seuu liindo! e escrevee maais! ;)

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